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4.05.2011

Do zumbi, da alma e do espírito.

Ela suplicava ao seu espírito que retornasse. Que pudesse novamente ver a vida com a paixão e com a dor que lhe são normais. Arrependia-se de tê-lo sepultado no decorrer dos anos, dentro de um poço raso mas extremamente escuro.

E agora, à medida de um pulo baixo ele insistia em permanecer cego e surdo. Ela não podia imaginar que seria assim, pois apenas queria adequar-se aos seus pares, todas aquelas pessoas que interagiam tão bem entre si. Tentava se confortar com suas justificativas rasas.

Porém, nunca lhe agradou a ideia de ser um zumbi, mesmo agora quando já era um à muito tempo. E sentia, logo abaixo dos pés frios, a sua presença retirada de si. Continuava sem saber se o seu espírito simplesmente a ignorava inconsciente disso tudo ou se a torturava por escondê-lo à força.

Seu rosto de zumbi no espelho não expressava o descontentamento, racionalizava cada mínimo pensamento tolo procurando leva-la até o fim do caminho de uma maneira confortável onde ao final já estaria completamente decomposta.

E ela esforçava-se para estender a mão no poço logo abaixo, mas tomava-se de terror ao imaginar a fúria do seu próprio espírito...por tantos anos silenciado.

1.28.2011

Sonho


Às vezes acreditava que era possível (mesmo em um humano recém chegado neste mundo) existir escondido os segredos das eras, o porque das existências, o enigma da criação e da criatividade.

Fechava os olhos enquanto ouvia a chuva arrebentar no telhado de barro, imaginando seu espírito se elevando por cima das tempestades nervosas; alimentava-se da luz dos relâmpagos; e ao mesmo tempo expandia-se pelos profundos abismos marítimos; embriagando-se do silêncio mais escuro.

Todas as distâncias encontravam-se ali, todos os estados de energia se diluíam em algo novo naquele breve sonho. Ela sentia como se respirasse logo depois do afogamento, se encontrava com todas as saudades e com tudo aquilo que amava mas não podia encontrar normalmente. E por segundos o seu sonho tomava forma da mais palpável realidade, como jamais havia sentido antes.

Mas outras vezes, não raro, ela apenas dormia. Recompunha às forças para mais um dia de trabalho e cumpria seu papel na história da fatiga humana.



"Abre logo o portão
Madrugada por todo o vale
Tá suando emoção
Tá com medo, e tem um detalhe
O medo embaça a visão
Abre logo antes que te abale
Ande na escuridão
O teu sonho parece um vale
Preso entre os morros não
Solta o sonho antes que se cale
Madrugada por todo vale... "


-A Fuga do Vale (Oswaldo Montenegro)-

5.25.2010

Do grito




Às vezes ela era um grito. Um grito mudo, se não fosse quase um clichê ser assim. Ela era um grito silencioso às formas que a maioria das pessoas têm de ouvir. Poderiam dizer que ela era um grito de birra, afinal sua vida era boa, ela tinha sorte. Tinha nos olhos portas largas abertas para o mundo e suas incríveis pessoas. Mas em algumas vezes, não raras, ela se percebia como sendo um grito, um grito tão louco que sua própria alma ignorava ser. Imaginava que tinha o grito e não o era, e que sendo assim encontraria em um dia qualquer uma forma de se desfazer dele. Mas os anos foram se passando, com novas tarefas, amores e amigos... Menos o grito, que às vezes se estampava, silencioso e aflito, do outro lado do espelho.

5.11.2010

Da chuva



Ela tinha a chuva como uma grande amiga. Uma poderosa maga que a levava aos céus mais altos que às nuvens negras e iluminadas. Não temia molhar-se, tampouco sentir seu sabor de vento e água. Extraía a poluição e guardava para si a sabedoria dos ciclos, da vida, das chuvas que caíram bem antes do mundo ser assim. E por alguns breves segundos, sentia-se evaporando junto ao chão quente em que pisava. Seu espírito se acalmava e tomava-se da certeza de que era livre como devia ser. Pelo menos enquanto chovia.

Lara.


Um excelente dia!!


4.30.2010

Da aula


A bala foi a mais doce

Cereja mel

Vermelha rubi

Refrescante.

Mais doce que seus pensamentos gastos

Que a sua alma cheia de obrigações

Mais refrescante que o ferver de suas tolices

Que o calor das futilidades alheias

Sua pele toda queimava em confusão e angústia.

Era o inferno em 45 minutos...

Menos a língua,

Salva pela bala de cereja.


Lara

9.02.2008

Das desventuras (...)



Era a própria flor da pele. Tudo lhe feria. Das coisas importantes como a falta de bondade no mundo, até as tolas como suas pequenas vaidades e orgulhos.
Não sabia o que fazer com isso. Com essa tristeza quase sempre sem resposta, com a expectativa do depois que uma vida de mil anos não poderia suprir.
Sua garganta fechava e doía como quando comia camarões, o ar também lhe faltava.
Seu nariz ficava vermelho e logo lágrimas brotavam como enchentes em seus olhos.
Se lhe perguntassem o porquê de tanto drama, ela piorava.
Preferiria explodir em mil pedaços a tentar responder àquela pergunta que, embora sem resposta, tanto lhe definia.




5.06.2008

Reflexão...

Ela sabe que não dá para agradar todo mundo.
Ela nem consegue agradar a si, na maioria das vezes.
Ela sabe que as pessoas são seres insatisfeitos por natureza e que jogam a culpa de sua infelicidade nos outros.
Ela sabe também que a infelicidade de alguém, exceto raríssimas exceções, é culpa desse alguém e de mais ninguém.
Ela tenta ser responsável pela própria felicidade e não quer sobrecarregar outras pessoas que, afinal, devem cuidar mais de si.
Ela também tenta não se importar com aqueles que querem lhe impor o peso da própria responsabilidade.
Ela acha, que de qualquer forma é impossível se livrar de tudo isso, e que a sua felicidade fica comprometida por causa de algumas pessoas que tem papel importante em sua vida.
Ela pensa que talvez, esse negócio de ser feliz não deve ser assim tão importante.
Ela vê que é meio bobo falar de si na terceira pessoa.
Ela acha mais fácil assim.
Ela conclui que não está mais nem aí.

11.26.2007

O que é é.


Você pode se esforçar para esconder os seus erros. Florear as cagadas dos seus amigos para que pareçam heróis.

Você pode até diminuir os sonhos e as perspectivas alheias, resumindo ao ridículo em que você quer tanto acreditar.

Você pode criar verdades tortas, criar fofocas, para argumentar e sustentar um mundinho, onde você ou seu comparsa são seres extremamente superiores e incompreendidos.

Você pode se dizer descolado, pode achar o mundo ingênuo e tolo mediante suas decisões egoístas pretensiosas e desesperadas.

Você pode achar que sabe mais sobre a vida de alguém do que o pobre jamais poderia saber de si.

Pense o que quiser, fale o que quiser, e, até machuque alguém que te estime, se achar que isso é necessário para manter suas crenças de papelão.

Mas por favor, não ache que as coisas deixarão de ser o que são, de ser o que foram, e continuarem sendo, perpetuamente, só porque você quer.

As histórias mais mesquinhas, desesperadas e maldosas da nossa vida; não mudarão com flores e pavios. Não importa quantas vezes você tente achar que sabe de algo verdadeiro, só porque esse algo lhe proporciona uma pretensa paz interior.

Tente, ao menos, fazer o que certo, e se não der certo, lembre-se que é normal e seja homem (ou mulher) para lidar com isso.

Porque talvez, seu castelo de ilusões não dure para sempre. De uma hora para outra você pode se perder, e, somente talvez, você se isole completamente, e eternamente, nas suas opiniões mirabolantes...

10.17.2007

Das pessoas



Não se engane sobre a personalidade das pessoas. Não existe alguém com pouca ou nenhuma personalidade. As pessoas fazem suas escolhas e decidem seu modo de ser baseadas em um esquema próprio de sobrevivência, que nos dias de hoje é mais social do que físico propriamente dito.
Pode-se usar a personalidade, as idéias, e até mesmo a amizade de outra pessoa como muletas, como desculpas para seus próprios pensamentos e ações, mas, toda essa aparente fraqueza, esconde uma verdade elementar, clara e simples: A própria pessoa, escudando-se no reflexo alheio, tal qual, idêntico em gênero número e grau à sua imagem.

Não culparei mais a personalidade de ninguém por nada que me afete ou aborreça. Cada um faz o que quer e porque quer, mesmo que não seja certo. Ponderamos as conseqüências e assumimos o risco, geralmente para beneficiar o nossos desejos momentâneos.
Isso é ser humano, longe de ser ideal, mas o mais sincero possível.

Não lamentarei por isso.

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Selo ganhado do


8.01.2007

Desapodrecendo!

Ela assistia à televisão como se houvesse, além das imagens e sons, um horizonte alheio à presença das três cores; sua cabeça doía, e o frio versus o calor instantâneo da cidade lhe faziam pensar que a vida talvez fosse um grande sonho febril, que às vezes se tornava pesadelo.

Arrumou suas coisas para ir treinar, apesar do desânimo, emagrecer era uma meta. Sabia que tudo isso era coisa das idéias que planavam antes do seu horizonte imaginário, e tinha consciência plena de que muitas dessas idéias dominavam cruelmente o seu mundo. De qualquer forma ela gostava do Taekwondo, quase sempre saía de lá se sentindo bem, e caso fosse bem disciplinada até emagreceria um pouco.

Dor de cabeça, corrida, pensamentos sobre sua família, chutes. Logo no final do treino, ela chuta o cotovelo do seu colega com tanta força que pensa quase gritando um palavrão, mas pede desculpas, afinal ela errara.

Sem dor de cabeça mas com uma luxação no pé direito via-se na hora de encarar a lotação para voltar à casa, depois de um tempo ela entrou. Van cheia, cobrador e motorista apressados; ela se incomodou por estar ali, em pé, tão suada no meio de tanta gente; porém esqueceu-se disso quando uma mulher pisou forte no seu pé machucado. “Desgraçada!”, pensou de novo, sabendo que em um lugar como aquele inferninho poderia muito bem ter sido ela a ofensora.

Logo depois um rapaz com uniforme escolar oferece um lugar vazio, chamou-lhe de senhora, preferiu não responder, mas aquilo lhe incomodou quase mais do que a dor no seu pé. Estaria assim tão abatida? Seus 25 anos lhe teriam sido tão ingratos? Pensamentos pretensiosos e vaidosos demais para quem precisava mesmo se sentar, pensou novamente, rapaz educado.

Em casa finalmente, durante o banho, quando a água quente e o ar gelado misturavam-se ao seu corpo, ela pensou mais uma vez. Agora em algo que parecia fazer sentido após tantos pensamentos tolos perdidos pelo dia. Disse consigo em voz de segredo: “Não basta pintar um sorriso na casca do ovo, é preciso realmente fazê-lo desapodrecer!”

7.26.2007

Acredidando em palavras mágicas...

Cabia-lhe apenas esperar
Com os olhos serenos e o medo vencido,
Que a sombra tenebrosa que afligia os seus
Levasse somente a aflição quando partisse.



PS: Outro videozinho da ruivinha: Bibbidi Bobbidi Boo

update:
DAS UTOPIAS
Mario Quintana

"Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!"

5.09.2007

Inevitabilidade...



Não queria sentir a amargura. Amargura era o sentimento das pessoas feias por dentro, pessoas que contagiavam o mundo com o sabor quase doce da morte.
A amargura, quase sempre não andava sozinha, e ela não queria nenhuma de suas companhias.
Não queria a Inveja, queria apenas apreciar o que achava bom e belo.
Não queria o Desânimo e a Dúvida, queria a certeza de que podia ser sempre melhor.
Não queria o Julgamento excessivo, queria sim, saber se criticar na medida, e deixar que cada um fizesse isso por si.
Ela não queria acreditar mais nos pesadelos que nos sonhos, nem pensar na morte como um esperado repouso.
Não queria também, temer a morte. Queria saber viver enquanto fosse possível.
Ela não queria...

Mas talvez ela não pudesse simplesmente evitar.